Eduardo Kebbe: "Maria"
Última atualização em Qui, 16 de Junho de 2011 17:10
Na opinião de alguns, a aposentadoria é o caminho para o ostracismo. Uma vez aposentado, o sujeito deixa de comunicar-se com os colegas de trabalho, estejam eles aposentados ou não. Por diferentes razões ou motivos, o sujeito se isola automaticamente.
Há exceções, claro. E Maria é uma delas.
Dias atrás Maria ligou para Tereza e disse: “Oi, tudo bem? Pensei em você e resolvi telefonar para saber como está você”.
Ambas, Maria e Tereza, trabalharam juntas na fábrica de tecidos. Eram, portanto, tecelãs. E a conversa girou em torno daqueles duros tempos juvenis.
“Lembra? – disse Maria – “a gente levantava às 6, fazia um frio de lascar e tínhamos que sair para enfrentar os teares. Voltávamos com os cabelos pontilhados de partículas de algodão, o corpo cansado e tudo o mais. Mas, foi bom.”
Prosseguiu.
“O pessoal de hoje não faz ideia do que era a vida naquele tempo, você não acha? A gente passava pelas vitrines, olhava aqueles sapatos lindos, aqueles vestidos chiques, nem passava pelas nossas cabeças poder comprar aquilo. Tínhamos que entregar o pagamento aos pais, que também não podiam. Hoje tudo está mais fácil, nem se compara.”
Saudades, lembranças de gente, humilde, ecos da juventude que se foi. Dizendo isso, lembrei-me de uma frase de Antonio Abujamra segundo a qual “o passado sempre volta, não adianta fugir.”
Ora, o telefonema de Maria mostrou isso, o passado voltou à sua cabeça por alguns momentos, fazendo-a ligar para a velha colega de fábrica. Voltou também para Tereza, que ficou feliz com a lembrança.
Ora, pois! Se a felicidade está nos pequenos atos da vida humana, acho que as Marias de outrora devem ligar para as Marias de agora.














