Eduardo Kebbe: “Tempos bicudos”
Escrito por Eduardo Kebbe
Quando éramos um país essencialmente agrícola, uma das frases correntes era que vivíamos “tempos bicudos”.
Tal frase estava principalmente associada à alta dos preços, chamada de carestia, expressão equivalente ao que hoje denominamos de inflação.
No setor de produtos alimentícios, as reclamações eram mais frequentes. As donas de casa voltavam da feira e, ao encontrarem uma amiga ou vizinha, diziam, assim na bucha:
“Dona Maria, a vida está pela hora da morte! Subiu a verdura, subiu tudo!”.
E os jornais, inevitavelmente, repercutiam essas queixas em notas e comentários. Lembro-me de um repórter que, referindo-se aos preços das feiras-livres de São Paulo, escreveu assim: “As feiras-livres estão livres demais”.
No comércio de produtos industrializados não havia muita opção, prevalecendo os produtos populares. Artigos de melhor qualidade, como sedas, perfumes, bicicletas etc., vinham de fora.
Eram os tempos bicudos daquela época.
Hoje, os tempos bicudos gravitam em outra esfera, como a da violência de nossos dias, da qual ninguém está imune em lugar nenhum.
Tempos bicudos também na área da educação, da saúde pública, do aumento do consumo de drogas, da desintegração das famílias, da carência de valores morais e por aí vai.
São temas graves, mas tratados apenas superficialmente. Mas esta é outra história.
E só nos resta constatar que as coisas mudam e, com elas, a própria linguagem cotidiana. Ninguém mais fala em carestia, mas em custo de vida. E ninguém mais diz que a vida está pela hora da morte.














